O filme não morreu.

Yodabashi

Este post foi recuperado dos arquivos da 1º versão do Analog Nights.

Já tinha falado ao Ludo’ que ia escrever um novo post para o Analog Nights, em parte porque sou fixe e tenho bigode, a outra parte porque me sinto um tanto obrigado a ser o geek que mostra que os negativos não estão (ainda) enterrados.

Com a massificação da Internet e a transposição de uma aldeia virtual para um novo mundo virtual, todos os mercados de nicho ganharam uma nova projecção. Acredito que a palavra nicho ganhou um novo significado, redefiniu-se e adaptou-se. Provavelmente há 10 \ 15 anos atrás a expressão seria “o vinil está a morrer”. A verdade é que o vinil não morreu e com o fácil acesso à informação, passou de um mercado de nicho elitista a um mercado visível novamente.

A expressão correcta resume-se a “cortar o intermediário”. Eu já não preciso de ir a uma loja para comprar um disco ou conhecer um novo artista, facilmente encomendo aquele novo EP do sueco The Tallest Man On Earth como dou por mim a conhecer uma nova banda indie-punk-rock-post-pop-electro-fixe-da-cena, que nasceu ontem numa cave do Funchal.

Tal como o vinil, o filme não morreu.

Yodobashi em Tóquio.

Parte do novo sucesso do filme deriva da Internet, do acesso que dispomos de distribuidores de filme acessível mas em especial da proliferação de plataformas que possibilitam a todos os internautas serem artistas. Qualquer um hoje em dia pode abrir uma página no Flickr e colocar fotos, todos podemos expor a nossa criatividade e sermos fixes.

Se pesquisarmos nestas plataformas por modelos \ marcas de rolos ou máquinas analógicas, ficamos com certeza espantados com a qualidade e quantidade de trabalhos que se encontram.

Novamente, do acesso fácil à informação, deixemos de ter um mercado de nicho elitista, para um novo mercado visível. A exposição e o acesso cativam todos os dias novos entusiastas, cada um com as suas razões.
Não tenho o intuito de explicar as vantagens do filme sobre o mundo digital. Não acredito no termo melhor, acredito que ambos os ramos têm as suas vantagens e desvantagens e é preciso reconhecê-las. Como é óbvio, eu não espero que todos os fotógrafos de profissão dêem numa de Samuel Bradley e comecem a fotografar bandas e sessões de moda com filme, mas também acho desapropriado aferir-se que um filtro XPTO com 3 pitadas de mayonese e photoshop
equivale a um Velvia, ou que os sensores digitais comuns abalam qualquer médio formato ou grande formato.

Mais Yodobashi!

Cada mundo com as suas vantagens e desvantagens, cada ferramenta para um fim.

Há uns dias atrás a fotógrafa Susana Paiva mandou-me uma mensagem com um site que me poderia interessar. Já andava há algum tempo com a ideia de escrever qualquer coisa sobre o mundo analógico no ciberespaço, este foi o catalisador que necessitava.

Decidi juntar meia dúzia de pontos interessantes, maioritariamente que dediquem algum tempo ao analógico, não só para cativar à experimentação, como também para acentuar razões de quem já assim fotografa.

Feaverish Photography

O Feaverish Photography Blog destaca-se como um dos melhores espaços para descobrir novos fotógrafos. A dedicação ao analógico é imensa e a qualidade dos desconhecidos que por aqui param soberba. Após um período prolongado de inactividade, tudo indica que voltou à normalidade, tornando-se um local de visita diária obrigatória. (update 2017: o site aparenta ter desaparecido na imensidão da internet).

500 Photographers 

O título fala por si, o projecto é objectivo e fantástico. Ao longo do tempo esta pequena base de dados do Pieter Wisse , tem recebido imenso protagonismo pela simplicidade como
também a capacidade de aglomerar fotógrafos de vários pontos do globo. Destaque-se o
projecto paralelo Four Eyes Magazine!

Not Common People

À semelhança do Feaverish Photography Blog, insinua-se não só como um combinado de galerias, mas um olhar pessoal dentro de cada fotógrafo num formato de mini entrevista. (update 2017: o site parece ter morrido, mas a página de Facebook ainda lá tem algum conteúdo).

Who Said We Can’t 

Com uma missão presunçosa e arisca, desprende-se dos formatos tradicionais para se apresentar sobre a forma de colectivo. Nunca encontrei informação clara sobre como funciona, que pessoas estão por trás de este organismo ou a periodicidade das actualizações, no entanto, é um espaço que merece uma espreitadela e uns random clicks nas amostras. (update 2017: o site já não existe, mas a página de Facebook ainda tem algumas coisas para espreitar)

British Journal Of Photography 

O British Journal of Photography costuma ser pioneiro em notícias em relação ao filme. Notícias tristes como o fim do Kodakchrome ou o Sensia receberam tanta projecção como as novas máquinas da FUJI, nova linha do Portra, etc.Assumindo-se como um Jornal Fotográfico, ocasionalmente divulga o acesso a excelentes reports fotográficos e não só.

Films And Grains

Films and Grains é a única revista actual que conheço, dedicada totalmente à fotografia analógica. Um projecto ambicioso onde todos podem e devem participar, seja com críticas, trabalhos ou mesmo servindo como um ponto de distribuição. A ideia da revista aposta essencialmente em novos e velhos fotógrafos analógicos, partindo do que foi mencionado anteriormente, o pressuposto que o filme é novamente um mercado em expansão pelo acesso que temos ao produto e à informação.

Inside Analog Photo

 

A Inside Analog Photo, apresenta-se como um combinado de podcasts sobre fotografia analógica e os seus processos intervenientes. Se se dedicarem a um post por dia, provavelmente têm uma quantidade razoável e interessante de informação a absorver. Imaginem-no como A Hora do Lobo, do já falecido António Sérgio, mas sobre fotografia analógica.

Carlos Sol é um fotógrafo de Lisboa com uma bela colecção de câmaras que até nós invejamos. É também o “gestor” por trás do We Love Film, uma loja online de rolos.

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8 Comments

  1. belo artigo, obrigada Carlos!
    adorava mergulhar numa daquelas prateleiras de rolos, ou então, ter uma loja igual ao virar da esquina <3

  2. A Yodobashi é um paraíso e este artigo uma relíquia!

  3. Pois, meus caros amigos, vivi em Tokyo, e sempre que entrava neste piso da yodobashi .... só me apetecia chorar com tanto artigo de fotografia analógico ainda vivo.

    Pena que a nossa cultura europeia seja redutora ao ponto de considerar apenas o que é mais recente o que é bom, e fectivamente todas as frramentas são ferramentas, o Digital é uma coisa e o Filme é outra, nenhum substitui o outro, mas virtude destes actos de tenho o ultimo gadget, matamos artes e meios de expressão.

    Dou os meus parabéns a este blog, só hoje tomei conhecimento.

  4. Que belo supermercado! Parece saído de um sonho. De qualquer forma, na Europa existem vários websites que nos dão uma sensação parecida.
    Partilho: http://www.fujilab.co.uk/ e http://www.macodirect.de
    Não são exactamente os preços do B&H, em Nova Iorque, mas são bastante em conta tendo em atenção ao que tenho encontrado por cá...
    Já agora partilho a minha colecção de máquinas: http://www.flickr.com/photos/m0rph3u/3736097218/

  5. Hehe, d'nada, os Parabéns são para ser dados a quem merece.

    Pedro .. .bela colecção Sim senhor.

    Eu ainda tenho a minha primeira Zeiss, comecei a tirar fotos com 12 anos com uma Zeiss Icarex 35cs, maquina que actualmente uso, tive uma polaroid enquanto gastei o cartucho que vinha de oferta hehe.

    Entretanto como andava a gastar 20 contos por mês em fotografia. Parei e juntei durante 2 anos para uma digital. Vomprei uma digital e partilho os dois mundos da fotografia, Digital e Analógica.

    Neste momento dá-me um prazer imenso usar as lentes antigas na minha Digital, nunca me substituiu o filme, mas tb o filme não me substituiu o digital.

    Apenas gosto da fotografia, seja qual for o equipamento. Estou a ver se compro agora pro Natal uma Bronica usada completa, para entrar no médio formato.

    Obrigado pelas dicas, coloquei um link nesta pagina no meu blog, e serei assiduo.

    Comprimentos a todos.

  6. Obrigado. As várias máquinas foram compradas num processo de auto-aprendizagem. Hoje em dia estou praticamente rendido ao médio formato e apenas uso uma Nikon FE ou a Contax T2, em 35mm.
    De início achava que não existia grande diferença entre o 35mm e os formatos médios, mas hoje em dia reconheço que é bastante diferente. A começar pelo peso e pela velocidade máxima das máquinas de grande formato, que não passa 1/500. De repente a perspectiva sobre a fotografia muda e bastante.
    Também tenho uma digital SLR, mas uso numa base pragmática. Há momentos ou objectos a fotografar, que não necessitam de reflexão posterior ou fazem parte de um processo de pensamento. Não existe necessidade de serem registados em filme.

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