Discos na Etiópia: artefactos culturais ou mercadoria fetiche?

Discos em vinil na Etiópia: artefactos culturais ou mercadoria fetiche?

A rica história musical da Etiópia tem vindo a ser apreciada pela nova geração com as reedições a romperem no mercado internacional. Tentar pôr as mãos em edições originais em vinil dos anos 60’s e 70’s, em Addis Ababa, é entrar em todo um outro campeonato, como Amira Ali veio a descobrir. Os preços inflacionados pela procura internacional, o secretismo e arrogância entre os negociantes e DJs, tornam difícil para os  Etíopes fazer parte da alegria de vasculhar na procura de discos vintage.

Um certo sábado, em Addis Ababa, Etiópia, enquanto o sol assava a Terra, sem deixar de queimar a relva, o fim de tarde, prolongando-se até à noite, foi dedicado aos clássicos etíopes.

Mamma Mia, um restaurante em Kasanchis, a baixa de Addis Ababa, especializa-se em comida italiana. Para além da comida saborosa, o proprietário criou um ambiente apelativo. A comida é servida na sala principal de refeições, com uma arquitectura clássica de Addis Ababa.  O edifício estético, com um apelo acolhedor, situa-se num terreno generoso, com um quintal repleto de cantos cobertos pela sombra de árvores, para nos podermos refrescar.

Este cenário parecia ser adequado a uma festa de dia/noite do género “mantas e vinho”. Tirando as mantas e o tom, mas com vinho e afins, estava instalado um pano de fundo de Jazz e música do mundo, para começar, e, com o aproximar do pôr-do-sol, os clássicos etíopes começaram a rodar. Os convidados estavam entretidos, enquanto comiam iguarias italianas. Alguns, provavelmente a maioria, vieram pela soirée – ouvir discos em vinil, ter conversas, crescentemente poéticas acerca de nada e beber uns copos. Os poucos etíopes da geração mais velha presentes, enquanto ouviam as gravações e escutavam as memórias nelas embutidas, pareciam agarrar-se ao passado, perdidos na nostalgia. E, em conjunto ou sozinhos, independentemente da idade, com a nostalgia palpável, todos viajámos no tempo.

Sendo uma estreia, a noite foi uma experiência no espaço e tempo, agitada por discos em vinil vintage.

Pelas 17:30h, um número considerável de pessoas começou a chegar; o grupo casual trouxe consigo um ambiente relaxado. A maioria parecia conhecer-se, talvez fossem clientes habituais do Mamma Mia, ou não. Conviviam naturalmente. Os expatriados predominavam no espaço.
Curiosamente, era evidente uma clara divisão entre a maioria de expatriados e a minoria de Etíopes. Uma excepção era a mesa onde estavam Amha Mulatu, fundador da Amha Records, e Francis Falceto, o homem por trás da produção da série Ethiopiques. Ambos reconhecidos por exportar música etíope do anos 1960s e 1970s para o mundo, numa época em que um vácuo musical na Etiópia era evidente. As sonoridades ricas da noite apresentaram-nos como entusiastas da música Etíope. Assim, eram tidos em boa conta no grupo; chapéus eram tirados ao homem por trás da Amha Records.
Com o começar do radiar do céu de fim de tarde, com um pôr-do-sol laranja/dourado, sons ricos da Etiópia embebiam o ar, em sincronia poética com a natureza. Com o desaparecimento do sol, sentia-se a drástica mudança do tempo, típica de Addis Ababa. A brisa fresca começou a agitar as folhas e a arrepiar a pele. Apesar de a música ser suficiente para aquecer o corpo e alma, as mantas (Gabee) tinham, afinal, dado jeito. Em vez disso, robustos troncos de madeira chegaram para queimar.

Enquanto a fogueira ardia com o cair da noite, o grupo aumentava, um a um, hora a hora.

Num intermédio entre cinismo e gozo, o DJ respondeu-me, “Não ias gostar do meu fornecedor, cospe ao falar. Cospe-te khat na cara.”

Rodeados por fogueiras, debaixo da lua cheia, pareciam estar à vontade, fascinados, em conjunto, pelos sons da Etiópia. Uma festa animada pelos sons de lendas: sons, possivelmente, considerados vintage. Numa forma mais rica, a festa viajava no tempo e, mais uma vez, Addis estava a badalar.
As épocas, factor fulcral para a experiência, eram o fundo da cena, reflectindo a música. Vídeos de música da época dourada eram projectados num segmento de parede de tijolo do restaurante. Apesar de ser difícil reparar nos vídeos, com um fraco posicionamento, a instalação parecia ter sido pensada com uma visão artística.

Encarregues dos sons da noite, a rodar, incessantemente, a agulha nos discos, estavam dois DJs – um visitante e o outro um norueguês residente em Addis Ababa. Completamente envolvida pela sua colecção musical, e pela memória e significado cultural associados – do que me lembro do amor da minha mãe por estas lendas – e como uma coleccionadora de vinil de pequena escala, abordei um deles para me recomendar um fornecedor local de vinil, ou uma loja. Fui apanhada de surpresa pela resposta.

Num intermédio entre cinismo e gozo, o DJ respondeu-me, “Não ias gostar do meu fornecedor, cospe ao falar. Cospe-te khat (uma planta de flor, nativa do corno de África e da Península arábica) na cara”. Um sorriso amarelo seguiu as suas palavras. Parecia ser um coleccionador/audiófilo obsessivo, ou então, emanava aquilo a que se chama “fidelidade perfeita”.
Adicional e obviamente, estava completamente inconsciente do facto de a minha família ter origem na terra do khat. Ainda por cima, suponho que o comentário “humorístico” tivesse o intuito de me repelir e desencorajar, fazer-me sentir como uma invasora e ele o protector da cultura etíope. Para piorar a situação, prosseguiu dizendo, “Estamos na mesma posição; eu sou um coleccionador e tu também”.
Sem perceber contra ou pelo quê, criou-se um ambiente de competição. Parecia que éramos rivais de alguma espécie, e, talvez, inconscientemente, fôssemos.
Ou então, poderá muito bem ser a ideia de estarmos, aparentemente, em competição na expansão das nossas colecções de vinil. Ou talvez seja a história de coleccionáveis raros.

Ainda assim, ligeiramente agitada pelo sentido de auto-privilégio que tinha formado, abri a boca para dizer, “O que mais importa na minha colecção de vinil não é o seu valor de mercado, mas o valor de memória e, essencialmente, o seu valor cultural simbólico”, mas pareceu-me inútil.
No entanto, ainda curiosa por perceber a necessidade de uma resposta tão condescendente, depois de me recompor e sacudir a ofensa, tentei outra ronda de civismo. Comecei por esclarecer que não pratico a mesma profissão que ele (assumindo que fosse um DJ profissional) e que estava, simplesmente, à procura de dois ou três discos de clássicos etíopes. Desprezou as minhas palavras com um ar de arrogância. Suponho que já devesse ter deduzido, das suas últimas palavras, que os riscos – quaisquer que fossem – eram, para ele, demasiados; e, ainda por cima, fez entender, com um exagerado sentido de importância, que os privilégios do vinil eram seus.
Para além do gozo desconfortável daquela troca de palavras, por momentos, senti que estava no negócio dos diamantes, a tentar encontrar uma mina para explorar.

Falávamos com a maioria deles [fornecedores] como estivéssemos à procura de comprar bens ilegais ou diamantes de sangue. Nenhum deles tinha discos à mão. Estavam escondidos, nas suas casas, ou nalgum lugar obscuro. Tinha que se combinar um encontro posterior para os ir comprar. Parecia uma aventura ambígua.

Virei as costas à conversa, determinada a escavar, (re)descobrir e avaliar os estado dos discos em vinil na cidade: a memória cultural da Etiópia em material. Ainda para mais, a noite foi uma provocação de desprezo cultural, uma lembrança de que os artefactos de vinil, para além da grande arte do álbum, são pegadas de cultura e uma meditação de memória. Nada menos que a forma como os artefactos, incluindo a música que ouvimos, se tornam parte das coisas que dão significado à cultura. E, certamente; como Jose Van Dijck (professor de Estudos Comparativos dos Media em Amesterdão) indica, “A memória musical manifesta-se na intersecção das memórias e identidades pessoais e colectivas”. Desempenham um papel considerável no paradigma pessoal e social; tornam-se parte da nossa memória colectiva, que deve ser estimada.

Assumindo que estes tesouros são descartados, ou mal cuidados, supondo que os fornecedores não compreendem o valor cultural destas verdadeiras jóias artísticas, comecei a pensar como opera o mercado de discos em vinil. Se é que existe, sequer, um mercado de vinil em Addis Ababa. Se sim, quem serão os verdadeiros detentores destes tesouros, compreendendo que o apelo do vinil já se expandiu bem para lá do estreito mercado de DJs puristas.
Encorajada pela vontade e um amigo com alguns contactos, fomos numa caça ao vinil. Ao entrarmos e sairmos nas lojas em Merkato, o maior mercado aberto do Este de África, localizado na capital da Etiópia, Addis Ababa, falando com vários lojistas identificados como fornecedores de discos, percebemos que o processo era bastante duvidoso. Falávamos com a maioria deles como estivéssemos à procura de comprar bens ilegais ou diamantes de sangue. Nenhum deles tinha discos à mão. Estavam escondidos, nas suas casas, ou nalgum lugar obscuro. Tinha que se combinar um encontro posterior para os ir comprar. Parecia uma aventura ambígua.

Merkato

O Merkato, Addis Abeba

Depois de algum tempo a explorar, encontrámos contactos fiáveis. Um vendedor de vinil disse-nos que já só tinha uns meros 70 discos, depois duma razia levada a cabo por um coleccionador estrangeiro, cliente habitual. Ainda para mais, o preço de um vinil em Birr (moeda etíope) disparou. Os fornecedores tinham em mãos uma mina de ouro, com os compradores estrangeiros dispostos a pagar qualquer preço por discos africanos. “Eles querem-nos, há uma procura incrível por música do Este de África. É tudo o que procuram e pagam seja que preço for”, disse o fornecedor, numa atitude de indiferença, com os braços cruzados sobre o peito.

Vai-se a ver e há quem ponha um preço alto em material cultural a que nós temos em desconto.

Estávamos estupefactos, mais ainda quando percebemos que o preço de mercado, altamente inflacionado, não era regateável. Chegámos ao ponto de reconhecer que os discos em vinyl, nesta cidade, se tornaram num bem fetiche. Não parávamos de questionar: será que estes preços se baseiam num valor real ou na assumpção de se estar a negociar artefactos raros, e ainda se o mercado será meramente conduzido pela baixa ou elevada procura? No entanto, para além daquilo que o mercado dita, não pode ser ignorado que “a predilecção por vinil é criticada como uma  prática antiquada, dispendiosa, elitista e de acumulação, que dá azo a mercados duvidosos e artificialmente inflacionados, lidando com artefactos de tecnologia e media raros”.

No final, independentemente de ser, ou não, uma “prática elitista de acumulação” é evidente que os discos em vinil importam. Há pessoas que coleccionam, a qualquer custo, artefactos culturais que vêem o seu valor desprezado pelos seus herdeiros legítimos, que os descartam como memórias sem importância, ou os deitam fora como material de cultura antigo. Assim, é preciso ser consciente da importância de criar e preservar colecções de legados de artefactos efémeros, conscientes do seu valor para a história e herança culturais. Sendo que o nosso património é aquilo somos e que iremos deixar para os nossos filhos, em forma de conhecimento, não podemos dar os nossos artefactos culturais por garantidos, nem quando se tratam de artefactos efémeros, como os discos em vinil.


Texto: Amira Ali
Tradução: Benedita Vasconcelos
Escolha musical: Ludovic

Este artigo foi originalmente publicado no http://www.africanhiphop.com/, que gentilmente cedeu permissão para publicarmos uma versão traduzida. 

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